Material que marcou a arquitetura moderna ganha nova leitura em Goiânia ao ser combinado a madeira, vegetação e luz natural
| Crédito - FR.Incorporadora |
Por trás da textura crua e das marcas deixadas pelas fôrmas está uma técnica que exige precisão desde a concepção do projeto. No concreto aparente, a estrutura é protagonista e passa a integrar a linguagem arquitetônica, tornando cada etapa da execução determinante para o resultado. Consolidado pelo movimento moderno e reinterpretado por diferentes gerações de arquitetos, o material atravessou décadas e continua encontrando espaço em projetos contemporâneos.
No Brasil, se tornou uma das linguagens associadas à arquitetura moderna, especialmente em obras ligadas ao brutalismo paulista e à valorização da estrutura como elemento estético. Em Goiânia, a técnica se destaca no empreendimento Jardim de Monet, localizado no Setor Marista, que explora a combinação do material com elementos como madeira e vegetação.
Da fôrma à forma
O concreto aparente é a técnica construtiva na qual o material permanece exposto após a desforma, sem receber reboco, pintura ou revestimento posterior. De acordo com o Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON), sua execução envolve cuidados que passam pela escolha dos materiais, dosagem, fôrmas, lançamento e proteção da superfície. Como o resultado permanece exposto, decisões tomadas durante essas etapas interferem diretamente na aparência final da estrutura.
Para o arquiteto André Lenza, essa característica ajuda a explicar por que o material atravessou diferentes momentos da arquitetura. “O concreto aparente nunca foi sobre economia de acabamento, e sim sobre uma postura de projeto. Quando um arquiteto opta por deixá-lo à vista, ele assume a responsabilidade estética da estrutura desde o primeiro traço”, explica.
O uso expressivo do concreto ganhou projeção ao longo do século XX. Le Corbusier ajudou a difundir o chamado béton brut, ou concreto bruto, enquanto, no Brasil, nomes como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha contribuíram para reforçar o uso do material como elemento da própria linguagem da arquitetura.
Além de Oscar Niemeyer, o Brasil construiu um repertório próprio de obras em concreto aparente, especialmente a partir da chamada Escola Paulista, movimento que ficou conhecido por explorar a estrutura bruta como elemento estético central dos projetos entre as décadas de 1960 e 1980.
Um dos marcos dessa vertente é o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, projetado por Paulo Mendes da Rocha, vencedor do Prêmio Pritzker, e reconhecido pela grande viga de concreto que se estende sobre o terreno, criando um espaço quase inteiramente subterrâneo abaixo da estrutura aparente.
Para André, esse conjunto de referências nacionais cumpre um papel pedagógico importante. "Quando um profissional ou um morador vê o concreto aparente associado a obras consagradas como o MASP ou o MuBE, a percepção sobre o material muda. Ele deixa de ser visto como algo cru e passa a ser reconhecido como uma escolha de projeto", avalia.
Concreto aparente em Goiânia
Entre os projetos que adotam essa linguagem na capital está o Jardim de Monet, da FR. Incorporadora. A fachada da torre combina grandes painéis de concreto com estruturas em madeira e vegetação que se estendem pelas sacadas, explorando o contraste entre a materialidade do concreto e os elementos naturais.
A presença do concreto aparente se repete em diferentes pontos do projeto, incluindo áreas comuns e o lobby, onde uma escada escultural em concreto integra a composição do espaço.
Para a diretora executiva da FR. Incorporadora, Lara Rassi, a escolha da técnica vem de encontro com uma visão mais ampla sobre arquitetura e experiência de moradia. “O concreto aparente carrega uma sinceridade construtiva que valorizamos: ele expõe a essência da edificação e, ao mesmo tempo, permite que a vegetação e a luz natural sejam protagonistas ao lado da estrutura”, afirma.
Segundo Lara, a escolha também está relacionada à busca por uma arquitetura capaz de preservar sua identidade ao longo do tempo. “É um material que envelhece bem e ganha personalidade com o passar dos anos, sem perder sua identidade”, completa.
Entre a técnica e a estética
Uma das características do concreto aparente é a capacidade de transitar por diferentes propostas arquitetônicas. Em projetos contemporâneos, pode aparecer em composições mais minimalistas ou em contraste com materiais como madeira, vidro, metal e vegetação. A ausência de revestimentos permite que textura, tonalidade e marcas da execução façam parte da composição visual do edifício.
Essa mesma característica torna sua execução mais exigente. Como a superfície final permanece exposta, imperfeições nas fôrmas ou na concretagem podem ficar visíveis, demandando planejamento e controle durante a obra.
André reconhece esse desafio no mercado goiano. “Ainda formamos poucas equipes de obra especializadas nesse tipo de execução na nossa região. É um gargalo real, mas que vem diminuindo à medida que mais projetos com concreto aparente saem do papel e comprovam sua viabilidade”, avalia.
.gif)



