Luziânia: a cidade mãe de Brasília faz 274 anos

 

Fazendeiros, garimpeiros e escravos ocupavam o território do DF e Entorno, muito antes de Brasília. Em busca de ouro, alguns fundaram Luziânia, que completa 274 anos hoje (13/12). A cidade de Luziânia exerceu importante papel na construção da nova capital


Muito antes dos candangos, dos políticos e dos servidores públicos, a região do atual Distrito Federal era ocupada por fazendeiros, escravos, bandeirantes, garimpeiros. Essa gente fez surgir e crescer o Arraial Santa Luzia. Primeiro, devido ao ouro. Depois, impulsionado pela agropecuária. Elevado a vila, tornou-se município e ganhou o nome de Luziânia. 
Mais antiga vizinha de Brasília e a sexta cidade mais populosa do estado, a cidade goiana completa 274 anos em 13 de dezembro de 2020. Com 210 mil habitantes e uma economia diversificada, ela não para de crescer. Muito em função da proximidade da capital do país.

Nos séculos 18 e 19, escravos africanos ergueram as casas, as lojas e as igrejas do ainda Arraial Santa Luzia. Eles eram a base de uma sociedade que tinha no topo os ricos donos de imensas fazendas e suas submissas mulheres. As propriedades rurais, tomadas por gado e cana-de-açúcar, alimentavam pequenas cidades e vilas, habitadas por padres, militares, comerciantes, artesãos e funcionários públicos. Percorridas por tropeiros em lombo de burro e carros de boi, trilhas e raras estradas de terra ligavam os núcleos populacionais.

Luziânia influenciou a cultura, a história e a economia de Goiás e do DF. No Arraial Santa Luzia, os integrantes da Missão Cruls montaram acampamento para o primeiro levantamento científico do quadrilátero onde seria erguida a nova capital brasileira. Mais tarde, fornecendo parte do seu território, comida, mão-de-obra e material para a construção de Brasília, contribuiu para a concretização da maior marca do governo de Juscelino Kubitschek, a cidade moderna desenhada por Lucio Costa.

Economia
Luziânia tem o PIB de aproximadamente R$ 2 bilhões, de acordo com os dados do IBGE em 2012, sendo assim a 9ª maior economia do estado de Goiás.

Comércio
Luziânia possui um dos comércios mais dinâmicos e promissores do Entorno. Atualmente registra-se no município mais de 4 mil estabelecimentos comerciais de diversos produtos ou serviços. O setor de alimentos e bebidas representa 15% (por número de estabelecimentos) do comércio, sendo o ramo mais participativo. Com a inauguração do "Luziânia Shopping", em 31 de maio de 2012, o comércio na região cresceu consideravelmente. Com um novo espaço de entretenimento, a população poderá usufruir de maior comodidade, praticidade e lazer no próprio município, sem a necessidade de se deslocar para outras cidades, especialmente a capital federal, Brasília.

Em breve será instalado um mega empreendimento na cidade goiana, o Alvorada Power Center (em construção). Quando concluído será o maior Shopping Center da América Latina, ultrapassando em Área Bruta Locável (ABL) o Centro Comercial Leste Aricanduva em São Paulo (atualmente o maior da América Latina). As empresas Mirante Luziânia Empreendimentos Imobiliários S/A e São Tiago Empreendimentos Imobiliários e Participações Ltda. são as responsáveis pela implantação do Centro Comercial.

Luziânia também conta com grandes redes de supermercados como Atacadão Dia Dia, Super Max, Leão entre outras. A cidade também abriga a Goiás Verde Alimentos, uma grande exportadora de grãos e enlatados.

No que tange ao ensino superior, possui um campus da Universidade Estadual de Goiás, que oferece os cursos de Administração e Pedagogia, além do Unidesc (Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro-Oeste), sendo o Unidesc uma entidade privada. Possui também um campus do Instituto Federal de Goiás, o IFG, que proporciona cursos técnicos integrados ao Ensino Médio nas seguintes áreas: edificações, química e informática para internet. Além disso, o IFG detém a autarquia de uma faculdade, fornecendo cursos superiores de Licenciatura em Química e Bacharelado em Sistemas de Informação.

No que se refere ao ensino médio e ao ensino fundamental, destacam-se os colégios públicos CEMAS (Colégio Estadual Maria Abadia Salomão), Colégio Estadual Dona Torinha, Colégio Cônego Ramiro, Colégio Estadual Alceu de Araújo Roriz e Escola Municipal São Caetano, cujas notas no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) foram as mais satisfatórias do município, embora ainda distantes do ideal. Igualmente, colégios particulares de reconhecida qualidade pedagógica são o Vovó Olívia, o Dinâmica e o Santa Luzia.

Luziânia possui um clube profissional de futebol, a Associação Atlética Luziânia, que disputa a 1ª divisão do Campeonato Brasiliense de Futebol. A principal praça de esportes da cidade é o estádio "Serra do Lago", cuja capacidade é de 21.564 pessoas. O time conquistou o Campeonato Brasiliense de 2014, ganhando acesso à série D do Campeonato Brasileiro. No ano de 2016 associação atlética Luziânia conquistou seu segundo título invicto do campeonato brasiliense.

Seus pontos Turísticos mais conhecidos são a Igreja do Rosário, Igreja Matriz, Cruz do Desbravador, Academia de Letras e Artes do Planalto, Casa da Cultura, Estátua do Cristo, Praça das Três Bicas, Praça Evangelino Meireles, Flutuante Porto do Vale (Lago Corumbá IV), Vale dos Pássaros Resort Fazenda, Hotel Fazenda do Tacho, Cachoeira Águas Claras (mais conhecida como Cachoeira do R$ 1,00, agora com o valor de R$8.00) e atualmente construído com a assinatura de Oscar Niemeyer o Centro de Cultura e Convenções.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário
Considerada o principal símbolo da cidade, a igreja situa-se no bairro do Rosário, próximo ao centro da cidade. A igreja foi edificada no Século XVIII por escravos. Rumores populares afirmam que embaixo do solo da igreja estão as covas onde foram enterrados os trabalhadores escravos que participaram na construção da igreja. A Cruz do Desbravador se localiza logo à frente da igreja.




Igreja Matriz
A atual Igreja Matriz da cidade começou a ser edificada em 1765, sendo inaugurada em 1767, mesmo sem ter sido finalizada. Sua construção partiu da necessidade da população de possuir um templo religioso com as proporções de uma matriz. Outro fator é que naquela época os brancos não se misturavam com os negros que frequentavam a Igreja do Rosário.

A igreja está situada na região central da cidade, na Praça da Matriz, uma das regiões mais nobres do municípios. A igreja também é considerada um símbolo municipal.

Casa da Cultura
A Casa da Cultura se localiza na rua do Rosário. Abriga um significativo acervo de objetos usados no passado, fotografias e também produções de artistas que retrataram a cultura da cidade e suas tradições antigas através de obras de inestimável valor histórico.

Praça das Três Bicas
O  artesanato de grande expressão regional transmite toda a cultura nativa das terras tipicamente goianas, que vem desde o ciclo do ouro e das grandes fazendas de agricultura de subsistência e pecuária extensiva. Retrata toda uma complexa cultura local, deixando sempre a evidência de nele participar a unidade familiar. A Praça das Três Bicas fica na região central, na área mais nobre da cidade.

Centro de Cultura e Convenções
O Centro de Cultura e Convenções também está localizado no centro da cidade. No prédio funcionam uma biblioteca, um cinema e auditório.

Parque Ecológico
O parque é um lugar agradável, com paisagens verdes, fauna e flora, propício para desenvolver atividades que trazem diferentes benefícios psicológicos, sociais e físicos à saúde dos moradores, como a redução do sedentarismo e amenizar o estresse do cotidiano urbano.

O catolicismo pode ser considerado a principal religião do município, visto que historicamente Luziânia evoluiu baseado na crença católica, deixando de herança a tradição e a cultura religiosa para os tempos atuais. No entanto, o protestantismo tem crescido rapidamente e representa grande parte da população luzianiense, com inúmeras igrejas e diversas denominações que ganham cada vez mais espaço na cidade. Há também outras religiões que predominam com menos intensidade na população do município, como o espiritismo, por exemplo. Portanto, é correto afirmar que não há em Luziânia uma religião majoritariamente dominante, sobretudo é inegável a importância da religião católica na evolução histórica e cultural do município.

Em Luziânia está a sede de uma das emissoras de TV da Rede Anhanguera, afiliada à Rede Globo, a TV Anhanguera Luziânia, que opera no canal 22 UHF desde 1995 em sinal analógico e no canal de 16 UHF em sinal digital desde agosto de 2010. O sinal da emissora atende a Microrregião do Entorno do Distrito Federal.

Os primeiros povoamentos ao redor do atual Distrito Federal surgiram em função da colonização das terras dos índios da etnia Goyá (grafia antiga) e da corrida ao ouro. Mais antigo dos núcleos urbanos da região, Pirenópolis, a 140km de onde seria erguida a nova capital do país, começou a ser ocupado em 1727, quando bandeirantes portugueses, vindos de São Paulo, ali fundaram as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte.

Os desbravadores sabiam da existência do ouro. Logo após montar acampamento, eles se lançaram à cata do precioso metal no leito do Rio das Almas. Passavam o dia revirando e lavando o cascalho das margens até poder apurar o ouro com bateia, em um dos mais antigos métodos de garimpagem. Oriundos do norte de Portugal e da Galícia, em sua maioria, os portugueses construíram casas e igrejas, formando um arraial.

No mesmo período, bandeirantes rumavam para o que viria a ser Corumbá, vizinha a Pirenópolis. Também atraídos pelo ouro, fixaram acampamento na margem esquerda do Rio Corumbá. Em 8 de setembro de 1730, fundaram o Arraial de Nossa Senhora da Penha do Corumbá. Ergueram ranchos de pau a pique, com cobertura de palhas de buriti. Um deles virou capela. Os outros serviam de moradia aos bandeirantes e a seus escravos.

Uma década depois, à procura de novas minas de ouro, o bandeirante Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu (MG),com amigos e escravos, em direção a Goiás, mas sem destino definido. Em 13 de dezembro de 1746, enquanto descansava às margens de um córrego, ele viu pepitas de ouro. No dia seguinte, ergueu um cruzeiro e dedicou as minas e o povoado à Santa Luzia (futura Luziânia). A notícia logo se espalhou. Em menos de um ano, o arraial tinha mais de 10 mil habitantes. Uma enormidade para a época.

Como em Pirenópolis, a primeira grande edificação de Luziânia foi a Matriz, construída de 1765 a 1767. Mas só a população branca podia frequentá-la. Com isso, os negros começaram a erguer, em 2 de junho de 1769, a Igreja do Rosário. Os dois templos continuam de pé, mas apenas o dos negros mantém a estrutura original. Ele fica no ponto mais alto da Rua do Rosário, onde se concentram os prédios históricos da cidade.

Cerca 2 mil escravos construíram, no século 18, um canal para levar água de onde hoje é o Gama ao centro do então Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia. Matas das encostas dos morros do Entorno escondem os vestígios da construção

Uma preciosidade da engenharia colonial resiste ao tempo, à ocupação urbana desenfreada e ao descaso do poder público. Dos tempos do Arraial Santa Luzia, ainda há ruínas da obra feita por 2 mil escravos no século 18. São nove dos 42km de um canal feito para levar água de onde hoje é o Gama (DF) ao município goiano. Matas das encostas dos morros e serras da região do Entorno escondem os vestígios da construção bicentenária.

Território dividido
De Luziânia, surgiram p Distrito Federal e outros municípios do Entorno do DF, como Cristalina, Santo Antônio do Descoberto, Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás, Novo Gama e Cidade Ocidental.

O arraial da Santa Luzia foi elevado à categoria de vila em 1º de abril de 1833 e à de cidade em 5 de outubro de 1867. Contudo, apenas a partir de 31 de dezembro de 1943, se passou a se denominar Luziânia, por meio do o decreto-lei estadual nº 8305.

Sem água, a mineração era impraticável. Era preciso lavar o material coletado no córrego para fazer a apuração das pedras preciosas. Para aumentar suas fortunas, quatro fazendeiros, exploradores do garimpo, decidiram canalizar o Saia Velha.

O projeto criou polêmica e inveja entre os demais fazendeiros da região. Um deles, o major José Pereira Lisboa, falava para quem quisesse ouvir que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em um rego ou canal, mas em cabaças”. Logo o comentário chegou aos ouvidos dos financiadores da obra, que tomaram nota e mandaram acelerar a construção, concluída em 11 de setembro de 1770.

Houve festa e confusão na inauguração do canal. “Quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo”, contou o historiador goiano Gelmires Reis em um dos seus 28 livros sobre Luziânia. Com a água, rolaram cabaças, que produziram um ruído original. Moradores da rua, entre eles o major Lisboa, acordaram também com a cantoria de mais de 100 escravos.

O Rego das Cabaças perdeu a utilidade com o declínio da mineração, entre o fim do século 18 e o início do século 19. As atividades econômicas se voltaram para uma agricultura de subsistência e pecuária extensiva. A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro. Os escravos formaram comunidades em volta das grandes fazendas do lugar.

Marmelada
Apenas quatro fazendas goianas, todas localizadas em Luziânia e na Cidade Ocidental, ainda produzem a marmelada em larga escala. Todas dependem da mão-de-obra e do conhecimento de descendentes de escravos para manter viva a tradição.




A Marmelada de Santa Luzia é um doce tradicional feito com marmelos encontrados na região de Luziânia. A receita tem sido passada de pai para filho através das gerações. A fruta usada é uma variedade de marmelo Português (Cydonia oblonga Mill.) que se adaptou perfeitamente ao clima da área de Luziânia. Os marmeleiros produzem frutas em Janeiro e Fevereiro, e os marmelos são pré-cozidos e armazenados em latas. A marmelada é produzida artesanalmente nas casas dos produtores durante todo o ano. A produção varia de acordo com os pedidos, mas as quantidades são mínimas já que o produto é vendido apenas localmente. A marmelada é produzida em tachos de cobre tradicionais.

O produto é embalado em caixas de madeira típica, feita pelos próprios produtores. A marmelada se preserva melhor quando em contato com a madeira, e uma fina camada se forma na parte superior. É consumida ao final das refeições como sobremesa, ou servida com queijos locais. 

A Marmelada de Santa Luzia é um doce produzido artesanalmente e típico de região de Luziânia, antigamente conhecida como Santa Luzia. A área de produção é o Planalto Central, onde a capital do país, Brasília, foi construída nos anos cinquenta. A marmelada é produzida por comunidades quilombolas, descendentes de escravos afro-brasileiros, que viviam em quilombos: vilas que foram fundadas entre os séculos 17 e 18 por escravos que conseguiam fugir de seus senhores e do terrível trabalho forçado em plantações e minas. Os escravos que conseguiam fugir, se esconderam nas florestas e viveram em isolamento por longos períodos, mantendo sua forte identidade cultural. Destas comunidades de Luziânia, Mesquita e Xavier, cerca de 30 famílias estão envolvidas com a produção tradicional da Marmelada de Santa Luzia.

Dessa forma surgiu o povoado do Mesquita, conhecido pela produção da marmelada, doce quase em extinção. A comunidade faz parte da Cidade Ocidental, desmembrada de Luziânia. O Mesquita concentra algumas das mais fortes lembranças do regime escravocrata nas terras hoje ocupadas pelo DF e pelas cidades do Entorno.

No lugarejo, parte das cerca de 300 famílias negras vivem como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência médica, comendo apenas o que tiram da terra. Reconhecido pelo governo federal como área remanescente de quilombo, ele cultiva goiaba, laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras culturas. Mas nenhuma é tão marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada.
Memória

Luziânia escreveu um triste capítulo na história do Brasil. A última condenação de um homem livre a pena de morte pela Justiça civil brasileira ocorreu na cidade goiana do Entorno, quando ainda era o Arraial de Santa Luzia. Aos 40 anos, o lavrador José Pereira de Souza recebeu a sentença por ter assassinado um barão. O réu era amante, havia seis anos, de Maria Nicácia, mulher da vítima. Para ficarem juntos, eles planejaram a morte do marido. Mas o plano não deu certo e ambos fugiram. Encontrados por policiais, acabaram condenados ao enforcamento.

Seis militares levaram José Pereira e Maria Nicácia, da cidade de Goiás para Santa Luzia, em 29 de agosto de 1857. Tendo sidos presos na antiga capital do estado (hoje conhecida como Goiás Velho), os réus esperavam o julgamento, que ocorreu no mesmo ano. Condenados, voltaram para Goiás, em 29 de setembro. Presos na cadeia local e sem um tribunal superior no tempo de um país colônia de Portugal, eles apelaram ao imperador D. Pedro II. José e Maria pediram o perdão, poder restrito ao monarca. Caso conseguissem, teriam a morte substituída pela prisão perpétua.

O andamento dos recursos durou quatro anos, até que veio o veredito, em 1861. Maria conseguiu o abrandamento da pena. José, não. Como seria o primeiro caso de enforcamento no arraial, as autoridades tiveram que preparar um espaço para o cumprimento da pena. Escravos levantaram a forca no centro, na área descampada de cerrado que até hoje conserva esse nome. Atualmente ocupado por casas, é onde se localiza o bairro Vila Santa Luzia. Por décadas, esse mesmo lugar era conhecido como Campo da forca.

Todo o arraial acordou cedo em 30 de outubro de 1861. Os moradores estavam ansiosos pelo momento histórico. Eles assistiriam à primeira e única execução oficial do lugar. José Pereira de Souza deixou a cadeia do povoado logo após almoçar. Ele fez todo o percurso, do presídio até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, acompanhado por uma silenciosa multidão. Dentro do templo, o obrigaram a cavar a própria sepultura. Em seguida, o levaram ao patíbulo, onde se confessou e recebeu a comunhão. Às 13h, o condenado se voltou em direção ao lugar da forca e foi empurrado para a morte.

Sepultura
A Igreja Nossa Senhora do Rosário é a mais famosa construção de Luziânia. Restaurada pelo Iphan em 2011, mantém as características originais, incluindo os túmulos de dezenas de moradores sepultados sob seu assoalho de madeira. Os mortos podem ser identificados pelo número escrito à faca no piso de tábua corrida. A sepultura número 9 é a do lavrador José Pereira de Souza. Ela fica em frente à porta do templo, erguido e frequentado só por negros, até depois da abolição.

No entanto, não há documento nem testemunha que explique a razão de Souza ter sido enterrado na Igreja do Rosário, pois ele era um homem livre. Historiadores sustentam que seria um castigo a mais ser enterrado ao lado de escravos. O tablado de suplício foi demolido logo após a execução, conforme determinava a lei. Já os documentos sobre a execução do lavrador foram queimados, por ordem de um delegado que queria os arquivos da cadeia limpos, para receber novos papéis.

A história da última condenação de um homem livre à pena de morte no Brasil foi recuperada por meio de alguns documentos e relatos de moradores antigos no início do século 20, pelo professor e historiador Gelmires Reis (leia Para saber mais), principal documentarista de Luziânia. Com a proclamação da República, em 1889, o Brasil extinguiu a pena de morte. As exceções ocorreram na ditadura militar. Caso haja outras, dentro das lei atuais, elas só poderão ser aplicadas durante uma guerra no país.

Então denominada Santa Luzia, a cidade de Luziânia serviu de base ao grupo de pesquisadores que fez a primeira demarcação do território onde seria construída Brasília

Brasília não nasceu do sonho de um sonho ou do mero desejo de Juscelino Kubitschek. A Constituição Federal de 1891, a primeira do país, determinou a demarcação do território onde seria construída a futura capital. Para tirá-la do papel, 60 anos antes de JK iniciar a construção da cidade, um grupo de cientistas brasileiros e europeus desbravou o Planalto Central para registrar tudo o que havia na região e traçar o quadrilátero em que seria erguida uma metrópole planejada. Nessa missão, realizada na última década do século 19, vindos do Rio de Janeiro, eles montaram acampamentos na hoje região do Entorno do Distrito Federal. À época, havia só quatro cidades: Pirenópolis, Corumbá, Formosa e Luziânia. Então chamada Santa Luzia, esta última, que completou 270 anos ontem, voltaria a ter papel fundamental na concretização da maior obra da era JK.

Pesquisadores, geólogos, geógrafos, botânicos, naturalistas, engenheiros e médicos, entre outros, integravam a equipe da missão chefiada pelo astrônomo e geógrafo belga Louis Ferdinand Cruls incumbida de explorar o Planalto Central. De 1892 a 1894, eles fizeram estudos científicos até então inéditos no Centro-Oeste, mapeando aspectos climáticos e topográficos, além de estudar a fauna, a flora, os cursos de rios e modo de vida dos habitantes. Realizado sobre lombo de burro, contando apenas com o vasto conhecimento dos expedicionários e equipamentos rústicos, o trabalho resultou em um precioso documento. Chamado de Relatório Cruls, ele contém mapas, descrições da fauna, da flora e das riquezas minerais da região, além de fotografias.

Uma cidade de ciclos
Surgida da exploração do ouro, a bicentenária Luziânia se apegou à agropecuária quando as pepitas acabaram. Agora, a cidade tem o setor de serviços como maior fonte de arrecadação

A formação do município de Luziânia (GO) remete a 274 anos, com a cobiça de bandeirantes paulistas por ouro no interior do Brasil. O ciclo da mineração foi a primeira atividade econômica. Em função dela, surgiu o Arraial de Santa Luzia, em 1746, quando Portugal cobrava o imposto conhecido como quinto, a retenção de 20% do ouro levados às casas de fundição, pertencentes à Coroa Portuguesa.

A facilidade na extração do ouro de aluvião — ou ouro de superfície — atraiu uma multidão de aventureiros. Ao contrário do que ocorre nos garimpos, esse tipo de metal pode ser encontrado às margens de córregos e rios e é retirado com bateias, espécie de peneira rudimentar que separa as pepitas do cascalho e da areia. Justamente por causa da falta de barreiras para o trabalho e da pouca quantidade de ouro em relação ao que havia em outros pontos do país, como Minas Gerais, a atividade durou pouco.

Passado o ciclo do ouro, no fim do século 18, muitos bandeirantes debandaram em busca de novos eldorados. As famílias que ficaram na região abandonaram o arraial e tiveram de buscar sustento em outros negócios. Essas pessoas, que já tinham fincado raízes na região, migraram para a zona rural, onde se organizaram em fazendas. A agricultura e a pecuária, então, passaram a ser protagonistas na economia local.

Até os anos 1980, a agropecuária era a maior fonte de receita do município, quando começou a perder espaço para o setor de comércio e serviços e de indústria. Estrategicamente posicionada a menos de 60km de Brasília e assistida por uma ferrovia e boa malha viária, a logística é favorável aos produtores; as intempéries do clima, nem tanto.

Soja e industria
Quinta mais populosa, Luziânia está entre as 10 cidades goianas com o maior Produto Interno Bruto (PIB). Segundo setor em arrecadação no município, a indústria representa 34% das riquezas produzidas em um ano. Os grandes grupos industriais chegam a ofertar 10 mil empregos diretos, de acordo com o Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos (IMB). Entre as maiores estão indústrias de alimentos, de higiene e limpeza e frigoríficos, que colocam a cidade na sétima posição entre as mais industrializadas de Goiás.

Luziânia lidera as exportações de soja em Goiás desde 2009. A mais recente estimativa, de dezembro de 2013, mostra uma movimentação de US$ 411 milhões para mercados no exterior. Milho, alimentos em conserva e algodão também contribuíram e tiveram como principal destino a China.

A construção civil registrou um forte crescimento nos últimos anos, com a construção de prédios e a criação de bairros, incluindo um condomínio fechado de alto padrão afastado cerca de 5km do centro da cidade. Entre os espigões, estão um edifício de 13 andares e um residencial com duas torres, com 24 pavimentos cada, onde também fica o shopping da cidade.

As hidrelétricas de Corumbá 3 e 4 também movimentaram a economia da região à época da construção. A arrecadação de ICMS de Luziânia subiu de R$ 700 milhões no ano anterior à obra para R$ 1,7 bilhão no ano em que foi finalizada. O ISS passou de R$ 5 milhões para R$ 10 milhões.

Com o crescimento da população, aumentou a demanda por produtos e serviços. Luziânia, que já teve a maior parte dos moradores morando na zona rural, agora é majoritariamente urbana. Dos quase 210 mil habitantes, apenas 12 mil vivem em áreas de campo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dados do IBGE mostram, ainda, que o setor de comércio e serviços é o principal responsável pela arrecadação do PIB do município, estimado em R$ 3,1 bilhões, segundo o mais recente levantamento. Destes, o setor corresponde a mais de um terço, com cerca de R$ 1,1 bilhão.

A agropecuária, que faz parte do inconsciente coletivo quando se fala em Luziânia, ocupa o quarto lugar em arrecadação e contribui com cerca de R$ 250 milhões, atrás da indústria e da administração pública. Outro indicador que demonstra mudança é o crescimento da frota de automóveis nos últimos 10 anos. Em 2005, havia 17.676 carros, motos e caminhões com placa da cidade. Em 2015, subiu para 47.758, cerca de um veículo para cada quatro habitantes.

Ainda assim, os salários pagos na cidade são baixos em relação ao restante do estado. A renda mensal média de um morador de Luziânia é de R$ 1.380. A média mensal do ganho de uma família é de R$ 2.060, menos da metade da capital de Goiás, Goiânia (R$ 4.162).

Apenas 28 casarões, além das duas igrejas bicentenárias, são tombadas em Luziânia. Em 1978, havia 106 construções com importância para a biografia do município. Interesse comercial nos lotes é a principal ameaça.