ARTIGO: A cidade espremida

*Cidades são pensadas como investimento

“A expansão imobiliária cria e resolve crises. Quando a economia global afundou em 2008, quem salvou foi a expansão urbana dramática na China, que consome até hoje metade do cimento, ferro e cobre do mundo, matérias-primas estas que foram compradas do Brasil, Chile e Austrália, ou seja, países que sobreviveram bem à crise.”

(David Harvey)

Itumbiara se situa no extremo sul goiano, está localizada na fronteira imediata com o Estado de Minas Gerais. Possui pouco mais de cem mil habitantes espraiados de forma desordenada em seus 2.462,93 quilômetros quadrados de área. Sua densidade populacional é, portanto, de 37,71 habitantes por quilômetros quadrados.

Dados do Instituto Mauro Borges (IMB), órgão ligado a Secretaria de Gestão e Planejamento do Estado de Goiás (Segegplan), indicam que Itumbiara ocupa a décima primeira posição entre os mais populosos municípios goianos. Está atrás da capital Goiânia (1.412.364 hab.); Aparecida de Goiânia (511.323 hab.); Anápolis (361.991 hab.); Luziânia (191.139 hab.); Águas Lindas de Goiás (182.526 hab.); Valparaíso de Goiás (150.005 hab.); Trindade (115.470 hab.); Formosa (110.388 hab.) e Novo Gama (104.899 hab.).

Nosso principal problema rural/urbano, o direito à moradia, que não é e jamais foi realizado, avilta fortemente toda a população, inquieta a comunidade, gera sobrepreço, inflaciona tudo o que respeita ao segmento imobiliário e nos específicos do indivíduo comum e geral da cidade, altera suas condutas, seus humores e os comportamentos sociais para pior. Este drama sócio-urbano inventado cotidianamente por bancos, financeiras, imobiliárias, construtoras, seguradoras e corretores só pode ser definitivamente compreendido a partir da tragédia fundiária que marca a geografia de Itumbiara.

Trata-se de problema gigantesco e que não possui qualquer tipo de real solução a médio prazo. Isso se deve, a princípio, porque as formas de ocupação territorial do município se deram de maneira absolutamente desordenada e sem qualquer mediação ou arbítrio público ou estatal. Em seus 106 anos de história jamais houve uma única política de distribuição de terras aos seus habitantes.

À população mais pobre cabia tão somente morar ou nos domínios dos fazendeiros onde o trabalho intenso e sub-remunerado era o vínculo possível para tal acontecimento ou se aventurar nas ocupações espontaneístas de áreas devolutas e que, em pouco tempo, eram duramente cobradas por grileiros locais ou alhures.

Todas as terras (eu disse… Todas as terras!) do município foram apropriadas por grandes fazendas, grandes empresas ou vultosos investimentos afeitos evidentemente, com a rentabilidade ligeira e fugidia de caráter especulativo das grandes propriedades rurais ou urbanas. De outra maneira, Itumbiara é um reflexo localizado da própria estrutura fundiária de Goiás e do Brasil.

Para breve consideração a esse respeito, a partir de dados do mesmo IMB/Segplan, o quadro fundiário de Goiás é caracterizado da seguinte maneira: 45,5% das terras para pastagens e; 17,9% para a produção agrícola o que demonstra o peso do agronegócio para o Estado. Itumbiara é análoga e tão somente isso. Só que nossos campos ou pastagens foram substituídos por desertos intoxicados de cana e a produção agrícola é a parte menor da própria produção automotiva.

O curioso dessa, de mais essa, tragédia territorial é que existe um sem-número de áreas completamente ociosas e que se postas ao bem público alteraria a própria composição orgânica das dinâmicas do capitalismo local e fronteiriço que marca a cidade. A questão conceitual a nortear a construção não de uma política pública, mas de caminhos para a realização de um direito constitucional é pôr em pleno destaque e movimento o princípio basilar de que a propriedade não é um direito absoluto, a moradia sim.

Bom… Itumbiara é um tipo espacial que só pode ser explicado no curso da sua história, em suas contradições e complementaridades mas de outra feita, não só na sua história. Existem elementos imateriais e fundamentais para a própria feitura dos territórios da municipalidade. Por exemplo, o medo, a intimidação e a esterilidade política dos amplos quantitativos da classe trabalhadora local e que irá, por conseguinte, cimentar o poder ou o agro-poder que ordenou e estruturou o espaço local.

Fato é que os amplos hiatos habitacionais que marcam a cidade são o resultado objetivo do latifúndio como atividade política, da degradação ambiental como a mais visível expressão fenomênica de suas demarcações territoriais, da ausência de políticas claras e efetivas de governo e é claro, não nos esqueçamos do beneplácito fiel e canino das administrações municipais e, detalhe importante, todas elas capitaneadas por fazendeiros e grandes proprietários de terras, então… É algo como entregar o galinheiro para as raposas tomarem conta.

Desse processo resultou um adensamento enorme de pessoas pobres, negras e advindas essencialmente do Norte/Nordeste do país e que tiveram que habitar ou coabitar em bairros ilegais, desestruturados e desassistidos.

E como se sabe, esse processo não chegou a termo. Somos uma cidade espremida entre uma massa d’água contida em uma hidroelétrica que nos gerou e ainda está a gerar incontáveis impactos sociais e ambientais e de outra banda, por milhares de quilômetros quadrados de monoculturas de cana-de-açúcar. É mais ou menos assim… Surgimos da empresa de oligarcas militares que se prostraram nesta franja fronteiriça; nos desenvolvemos entre latifúndios de utilização de mão-de-obra semi-escrava e chegamos neste “topos” urbano com especificidades sociais e históricas que nos obriga a pensar sobre a imperiosa necessidade de rompermos com esse passado primário-predador de grandes custos sociais e políticos.

Finalmente, conforme a citação do geógrafo britânico David Harvey, as cidades atuais, cidades do capital, não são pensadas e feitas para morar, são concebidas como investimento, como possibilidade de especulação e como estrategia de reprodução da mesma lógica do capital que nos arruína o tempo presente coo habitantes da cidade.


*Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.